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    A VOZ DO SILÊNCIO

     Simon and Garfunkel - The Sound of Silence

     

    Por Martha Medeiros

    Pior do que a voz que cala,
    é um silêncio que fala.

    Simples, rápido! E quanta força!

    Imediatamente me veio à cabeça situações
    em que o silêncio me disse verdades terríveis,
    pois você sabe, o silêncio não é dado a amenidades.
    Um telefone mudo. Um e-mail que não chega.
    Um encontro onde nenhum dos dois abre a boca.

    Silêncios que falam sobre desinteresse,
    esquecimento, recusas.

    Quantas coisas são ditas na quietude,
    depois de uma discussão.
    O perdão não vem, nem um beijo,
    nem uma gargalhada
    para acabar com o clima de tensão.

    Só ele permanece imutável,
    o silêncio, a ante-sala do fim.

    É mil vezes preferível uma voz que diga coisas
    que a gente não quer ouvir,
    pois ao menos as palavras que são ditas
    indicam uma tentativa de entendimento.

    Cordas vocais em funcionamento
    articulam argumentos,
    expõem suas queixas, jogam limpo.
    Já o silêncio arquiteta planos
    que não são compartilhados.
    Quando nada é dito, nada fica combinado.

    Quantas vezes, numa discussão histérica,
    ouvimos um dos dois gritar:
    "Diz alguma coisa, mas não fica
    aí parado me olhando!"

    É o silêncio de um, mandando más notícias
    para o desespero do outro.

    É claro que há muitas situações
    em que o silêncio é bem-vindo.
    Para um cara que trabalha
    com uma britadeira na rua,
    o silêncio é um bálsamo.
    Para a professora de uma creche,
    o silêncio é um presente.
    Para os seguranças de um show de rock,
    o silêncio é um sonho.

    Mesmo no amor,
    quando a relação é sólida e madura,
    o silêncio a dois não incomoda,
    pois é o silêncio da paz.

    O único silêncio que perturba,
    é aquele que fala.

    E fala alto.

    É quando ninguém bate à nossa porta,
    não há e-mails na caixa de entrada
    não há recados na secretária eletrônica
    e mesmo assim, você entende a mensagem



    Escrito por Elaine Bertone às 15h39
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     saltimbancos trapalhoes - A historia de uma gata



    Escrito por Elaine Bertone às 23h39
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    GATOS

                              ( Mittens - a gata do filme  Bolt - o supercão)

    Por Arthur da Távola

     

    Bichos polêmicos sem o querer, porque sábios, mas inquietantes, talvez por isso.
    Nada é mais incômodo que o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam. O só amar a quem os merece.

    O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência, obediência. O gato não satisfaz as necessidades doentias do amor. Só as saudáveis.
    Lembrei, então, de dizer, dos gatos, o que a observação de alguns anos me deu. Quem sabe, talvez, ocorra o milagre de iluminar um coração a eles fechado? Quem sabe, entendendo-os melhor, estabelece-se um grau de compreensão, uma possibilidade de luz e vida onde há ódio e temor? Quem sabe São Francisco de Assis não está por trás do Mago Merlin, soprando-me o artigo?
    Já viu gato amestrado, de chapeuzinho ridículo, obedecendo às ordens de um pilantra que vive às custas dele? Não! Até o bondoso elefante veste saiote e dança a valsa no circo. O leal cachorro no fundo compreende as agruras do dono e faz a gentileza de ganhar a vida por ele. O leão e o tigre se amesquinham na jaula. Gato não. Ele só aceita uma relação de independência e afeto. E como não cede ao homem, mesmo quando dele dependente, é chamado de arrogante, egoísta, safado, espertalhão ou falso. "Falso", porque não aceita a nossa falsidade com ele e só admite afeto com troca e respeito pela individualidade. O gato não gosta de alguém porque precisa gostar para se sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe é próprio, que é dele e ele o dá se quiser. O gato devolve ao homem a exata medida da relação que dele parte. Sábio, é espelho. O gato é zen. O gato é Tao. Ele conhece o segredo da não-ação que não é inação. Nada pede a quem não o quer. Exigente com quem ama, mas só depois de muito certificar-se. Não pede amor, mas se lhe dá, então ele exige.
    Sim, o gato não pede amor. Nem depende dele. Mas, quando o sente, é capaz de amar muito. Discretamente, porém sem derramar-se. O gato é um italiano educado na Inglaterra. Sente como um italiano mas se comporta como um lorde inglês.
    Quem não se relaciona bem com o próprio inconsciente não transa o gato. Ele aparece, então, como ameaça, porque representa essa relação precária do homem com o (próprio) mistério. O gato não se relaciona com a aparência do homem. Ele vê além, por dentro e pelo avesso. Relaciona-se com a essência. Se o gesto de carinho é medroso ou substitui inaceitáveis (mas existentes) impulsos secretos de agressão, o gato sabe. E se defende do afago. A relação dele é com o que está oculto, guardado e nem nós queremos, sabemos ou podemos ver. Por isso, quando surge nele um ato de entrega, de subida no colo ou manifestação de afeto, é algo muito verdadeiro, que não pode ser desdenhado. É um gesto de confiança que honra quem o recebe, pois significa um julgamento.
    O homem não sabe ver o gato, mas o gato sabe ver o homem. Se há desarmonia real ou latente, o gato sente. Se há solidão, ele sabe e atenua como pode (ele que enfrenta a própria solidão de maneira muito mais valente que nós). Se há pessoas agressivas em torno ou carregadas de maus fluidos, ele se afasta. Nada diz, não reclama. Afasta-se. Quem não o sabe "ler" pensa que "ele não está ali". Presente ou ausente, ele ensina e manifesta algo. Perto ou longe, olhando ou fingindo não ver, ele está comunicando códigos que nem sempre (ou quase nunca) sabemos traduzir.
    O gato vê mais e vê dentro e além de nós. Relaciona-se com fluidos, auras, fantasmas amigos e opressores. O gato é médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente a nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério. O gato é um monge portátil à disposição de quem o saiba perceber.
    Monge, sim, refinado, silencioso, meditativo e sábio monge, a nos devolver as perguntas medrosas esperando que encontremos o caminho na sua busca, em vez de o querer preparado, já conhecido e trilhado. O gato sempre responde com uma nova questão, remetendo-nos à pesquisa permanente do real, à busca incessante, à certeza de que cada segundo contém a possibilidade de criatividade e de novas inter-relações, infinitas, entre as coisas. O gato é uma lição diária de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas. Exigem recolhimento, entrega, atenção. Desatentos não agradam os gatos. Bulhosos os irritam. Tudo o que precise de promoção ou explicação, quer afirmação. Vive do verdadeiro e não se ilude com aparências. Ninguém em toda natureza aprendeu a bastar-se (até na higiene) a si mesmo como o gato!
    Lição de sono e de musculação, o gato nos ensina todas as posições de respiração ioga. Ensina a dormir com entrega total e diluição recuperante no Cosmos. Ensina a espreguiçar-se com a massagem mais completa em todos em todos os músculos, preparando-os para a ação imediata. Se os preparadores físicos aprendessem o aquecimento do gato, os jogadores reservas não levariam tanto tempo (quase 15 minutos) se aquecendo para entrar em campo.
    O gato sai do sono para o máximo de ação, tensão e elasticidade num segundo. Conhece o desempenho preciso e milimétrico de cada parte do seu corpo, a qual ama e preserva como a um templo.
    Lição de saúde sexual e sensualidade. Lição de envolvimento amoroso com dedicação integral de vários dias. Lição de organização familiar e de definição de espaço próprio e território pessoal. Lição de anatomia, equilíbrio, desempenho muscular. Lição de salto. Lição de silêncio. Lição de descanso. Lição de introversão. Lição de contato com o mistério, com o escuro, com a sombra. Lição de religiosidade sem ícones.
    Lição de alimentação e requinte. Lição de bom gosto e senso de oportunidade. Lição de vida, enfim, a mais completa, diária, silenciosa, educada, sem cobranças, sem veemências, sem exigências.
    O gato é uma chance de interiorização e sabedoria posta pelo mistério à disposição do homem.
    .



    Escrito por Elaine Bertone às 23h22
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