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    Escrito por Elaine Bertone às 17h54
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    A COMPLICADA ARTE DE VER

    Por Rubem Alves

    Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões - é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."

    Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".

    Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.


    William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

    Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

    Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".

    Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa - garrafa, prato, facão - era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".

    A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas - e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

    Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".

    Por isso - porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver - eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...


    O texto acima foi extraído da seção "Sinapse", jornal "Folha de S.Paulo", versão on line, publicado em 26/10/2004

     

     

     



    Escrito por Elaine Bertone às 17h48
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     TOQUINHO - RECEITA DE FELICIDADE



    Escrito por Elaine Bertone às 15h58
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    RECEITA DE ALEGRIA

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     Por  Pablo  Picasso

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     




    Joga fora todos os números não essenciais para tua sobrevivência.
    Isto inclui:
    idade,
    peso
    e altura.

    Que eles preocupem ao médico.
    Para isto o pagamos.
    Conviva, de preferência,
    com amigos alegres.
    Os pessimistas não são
    convenientes para ti.

    Continua aprendendo...
    Aprenda mais sobre computadores,
    artesanato,
    jardinagem,
    qualquer coisa...

    Não deixe teu cérebro desocupado.
    Uma mente sem uso
    é oficina do diabo.
    E o nome do diabo é “Alzheimer”.

    Ria sempre,
    muito e alto.
    Ria até não
    poder mais.
    Inclusive de ti mesmo!

    Quando as lágrimas chegarem:
    agüenta, sofre e...
    Segue adiante.

    Agradeça cada dia que amanhece
    como uma nova oportunidade

     

    para fazer aquilo que ainda não tiveste coragem de começar.

    Do princípio ao fim.

    Prefira novos caminhos
    do que voltar a
    caminhos mil vezes trilhados.

    Apaga o cinza de tua vida.

     

    E acenda as cores que carregas dentro de ti.

    Desperta teus sentidos para que não percas tudo de belo e formoso que te cerca.

    Contagia de alegria ao teu redor,
    e tenta ir além das fronteiras pessoais a que tenhas chegado aprisionado pelo tempo.

    Porém lembra-te:
    a única pessoa que te acompanha a vida inteira és tu mesmo.

    Cerca-te daquilo que gostas:
    família,
    animais,
    lembranças,
    música,
    plantas,
    um hobby,
    seja o que for...

    Teu lar é teu refúgio, porém não fiques trancado nele.

    Teu melhor capital,
    a saúde.

    Aproveite-a
    Se é boa,
    não a desperdice;
    se não é,
    não a estrague mais.

    Não se renda à nostalgia.

    Sai à rua.
    Vá à uma cidade vizinha,
    a um país estrangeiro...
    Porém não viaja
    ao passado porque,dói!

    Diz aos que amas,
    que realmente os amas e
    faça isso em todas
    as oportunidades que tiver.

    E lembra-te sempre que
    a vida não se mede pelo número de vezes que respirastes, mas pelos momentos que teu coração palpitou forte:

    de muito rir...
    de surpresa...
    de êxtase...
    de felicidade...

    E sobretudo...
    de amar sem medida.

    “Há pessoas que transformam o sol em uma pequena mancha amarela, porém há também as que fazem
    de uma simples
    mancha amarela
    o próprio sol.”

     

     

         

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     



    Escrito por Elaine Bertone às 15h42
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